Anistia a Bolsonaro: Alcolumbre acena e o PL desconfia

Arte sobre a anistia a Bolsonaro com os quatro caminhos em discussão: indulto, anistia, Lei da Dosimetria e revisão criminal

A anistia a Bolsonaro voltou ao centro da disputa pelo comando do Senado. Davi Alcolumbre (União-AP) disse a aliados que vai defender com Lula um indulto humanitário ao ex-presidente e, sem acordo, uma anistia no Congresso, segundo Folha e InfoMoney. Não há proposta formal.

A movimentação ocorre a três meses da eleição para a presidência do Senado, marcada para fevereiro de 2027, e na véspera da reunião em que a bancada do PL deve lançar Rogério Marinho (PL-RN) à disputa, nesta quarta-feira (4), segundo a Folha de S.Paulo. Nesta terça (3), a colunista Andréia Sadi, do g1, relatou que, para setores do PL, Jair Bolsonaro põe a anistia acima dos interesses eleitorais do próprio partido e poderia até aceitar o apoio à reeleição de Alcolumbre.

Anistia a Bolsonaro: o que Alcolumbre está oferecendo

Segundo a Folha, o presidente do Senado quer, em troca da anistia ou do indulto, o compromisso da direita de abandonar a pressão pelo impeachment de ministros do STF e de apoiar a reeleição dele no comando da Casa. Ainda segundo a Folha, ele disse a aliados que vai procurar Lula para defender o indulto humanitário. O Globo relata que não há proposta fechada e que Lula ainda não tinha sido consultado.

O outro lado foi ouvido pelos jornais. Interlocutores de Alcolumbre disseram à CNN Brasil que as conversas são preliminares, que não existe acordo nem solução encaminhada e que é precipitado ligar o tema à eleição de fevereiro. O senador Laércio Oliveira (PP-SE), que levou a ideia a Alcolumbre em 26 de outubro, disse à Folha que a proposta não é uma troca por votos: “Ele está defendendo uma pacificação entre os Poderes”. O presidente da CCJ, Otto Alencar (PSD-BA), afirmou à CNN que “não tem discussão sobre indulto e anistia”.

CaminhoQuem decideSituação hoje
IndultoPresidente da República, por decreto (art. 84 da Constituição)Planalto descarta, segundo auxiliares de Lula ouvidos pela imprensa
AnistiaCongresso, por lei (art. 48), com sanção ou vetoSem projeto formal; só articulação
Lei da DosimetriaJá é lei (15.402/2026)Aplicação suspensa por Moraes desde 9 de maio
Revisão criminalSTF (relator: Kassio Nunes Marques)PGR tem dez dias para se manifestar no 2º pedido

Por que o PL desconfia do presidente do Senado

A oposição não comprou a oferta. Segundo a Folha, senadores de oposição rejeitam trocar o apoio a Alcolumbre por indulto ou anistia e lembram a redução das penas do 8 de Janeiro, que o Congresso aprovou e que acabou suspensa. O Globo ouviu senadores eleitos como Guilherme Derrite (PP-SP), Marcel van Hattem (Novo-RS) e Deltan Dallagnol (Novo-PR), que também descartam acordo. “Alcolumbre não tem palavra nem credibilidade. Nossa memória não é curta e lembramos da anistia que virou dosimetria e virou gaveta”, disse à Folha o deputado e senador eleito Carlos Jordy (PL-RJ). Jorge Seif (PL-SC) afirmou que a oposição apoiou Alcolumbre em 2024 com a promessa de anistia.

A conta dos votos explica o interesse. Para eleger o presidente do Senado são necessários 41 dos 81 votos, e o PL terá 29 cadeiras a partir de 2027, a maior bancada da Casa, segundo a Agência Senado. O Globo calcula que Alcolumbre aposta numa base de 33 senadores, pouco mais que os 31 de PL e Novo, que rejeitam acordo. Os votos de PP, Republicanos, Podemos e PSDB decidiriam a disputa. Os detalhes estão na matéria sobre a presidência do Senado em 2027.

Há também o impeachment de ministros do STF, bandeira com que muitos senadores de direita se elegeram. Segundo a Folha, ao menos 49 dos 81 senadores da nova legislatura defendem o impeachment, mas são necessários 54 votos para afastar um ministro. O passo a passo está em como funciona o impeachment de Moraes.

O que diz o governo Lula

Auxiliares de Lula no Planalto descartam que o presidente apoie qualquer benefício a Bolsonaro, segundo a coluna de Milena Teixeira, do Metrópoles, reproduzida pelo BNews. Em 17 de setembro de 2025, Lula disse à BBC News Brasil que vetaria uma anistia aprovada pelo Congresso: “Pode ficar certo de que eu vetaria”. Em janeiro de 2026, ele vetou integralmente o projeto da dosimetria, lembra a CNN Brasil.

O veto caiu. O Congresso o derrubou em 30 de abril, e Alcolumbre promulgou a Lei 15.402/2026 em 8 de maio, segundo a Agência Senado. A lei impede somar as penas de crimes contra o Estado Democrático de Direito cometidos no mesmo contexto e reduz de um terço a dois terços a pena em contexto de multidão, desde que o condenado não tenha financiado os atos nem exercido liderança. No dia seguinte, Moraes suspendeu a aplicação da lei às execuções penais do 8 de Janeiro até o plenário julgar as ações da ABI e da federação PSOL-Rede. Segundo a Folha, a mudança reduziria o tempo de Bolsonaro em regime fechado de 6 a 8 anos para algo entre 2 anos e 4 meses e 4 anos e 2 meses, a depender da interpretação.

Bolsonaro foi condenado pelo STF a 27 anos e três meses de prisão por golpe de Estado, abolição violenta do Estado Democrático de Direito e outros três crimes, e cumpre pena em prisão domiciliar humanitária, mantida por Moraes em julho. A defesa nega os crimes e tem dois pedidos de revisão criminal no STF. Segundo a Folha, especialistas citam jurisprudência do Supremo de que crimes contra o Estado Democrático de Direito não admitem indulto nem anistia, e lembram que a Corte derrubou em 2023 o indulto dado por Bolsonaro a Daniel Silveira. A derrota de Flávio Bolsonaro, analisada em Flávio Bolsonaro depois do segundo turno, tirou da mesa o indulto que a família esperava, diz o InfoMoney.

OPINIÃO

Anistia é instrumento legítimo, previsto na Constituição e usado pelo Brasil em 1979 para virar a página de um período de conflito. Debater uma anistia para os condenados do 8 de Janeiro, muitos deles com penas que a própria lei aprovada pelo Congresso considerou desproporcionais, é tarefa do Parlamento, não favor de ninguém. O problema é o balcão. Transformar o perdão em moeda para garantir a reeleição de Alcolumbre e blindar ministros do STF de qualquer processo de impeachment é misturar coisas que não deveriam estar na mesma mesa. Quem foi eleito com a bandeira de enfrentar os abusos do Supremo não pode trocá-la por promessa. E Alcolumbre, que já prometeu antes, precisa mostrar o projeto, por escrito, antes de pedir voto. O Senado de 2027 foi escolhido pelo eleitor para fazer contrapeso a Lula, e não para fechar acordos de bastidor.

— Emílio Kerber e Redação Endireita Brasil TV. Este box é opinião e está separado do noticiário.

Perguntas frequentes

Existe proposta de anistia a Bolsonaro no Congresso agora?

Não há proposta formal. Segundo Folha de S.Paulo, InfoMoney e O Globo, Davi Alcolumbre disse a aliados que vai defender com Lula um indulto humanitário e, se não houver acordo, uma anistia no Congresso. Interlocutores do presidente do Senado disseram à CNN Brasil que as conversas são preliminares e que não há acordo fechado.

Qual a diferença entre anistia e indulto?

O indulto é concedido pelo presidente da República, por decreto (art. 84 da Constituição), e perdoa a pena, mas mantém a condenação. A anistia é aprovada pelo Congresso por lei (art. 48) e apaga o próprio crime; o texto vai a sanção ou veto, e o veto pode ser derrubado. Nos dois casos, o STF pode ser acionado.

Lula pode vetar uma anistia a Bolsonaro?

Pode. Uma anistia por projeto de lei vai à sanção do presidente. Em 2025, Lula disse à BBC News Brasil que vetaria: “Pode ficar certo de que eu vetaria”. O Congresso, porém, pode derrubar o veto, como fez com a Lei da Dosimetria em 30 de abril de 2026.

O que é a Lei da Dosimetria?

É a Lei 15.402/2026, promulgada por Alcolumbre em 8 de maio depois da derrubada do veto total de Lula. Ela impede somar as penas de crimes contra o Estado Democrático de Direito cometidos no mesmo contexto e reduz penas em contexto de multidão. Desde 9 de maio, sua aplicação às execuções penais do 8 de Janeiro está suspensa por decisão de Alexandre de Moraes, até o plenário do STF julgar as ações contra a lei.

Onde está Bolsonaro hoje?

Em prisão domiciliar humanitária, mantida pelo ministro Alexandre de Moraes em julho de 2026, segundo o STF. Ele foi condenado a 27 anos e três meses de prisão na Ação Penal 2668. A defesa sempre negou os crimes e tem dois pedidos de revisão criminal no STF, relatados por Kassio Nunes Marques.

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Nota de transparência: Emílio Kerber é jornalista e escritor. Fatos atribuídos a terceiros têm a fonte indicada no texto. A Lei 15.402/2026 e os artigos da Constituição foram conferidos no Planalto; a promulgação, na Agência Senado; a suspensão da lei e a prisão domiciliar, no portal do STF. A articulação de Alcolumbre foi confirmada em Folha de S.Paulo, O Globo, InfoMoney e CNN Brasil; a resposta do entorno dele e a fala de Otto Alencar são da CNN Brasil; a de Laércio Oliveira, da Folha; a posição de Bolsonaro relatada por setores do PL é da coluna de Andréia Sadi, do g1. A fala de Lula é da entrevista à BBC News Brasil (17/09/2025). O texto não faz acusação a ninguém. O box OPINIÃO é opinião e está separado do noticiário.

Imagem: arte Endireita Brasil TV.

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