O Pé-de-Meia Universitário, a bolsa de R$ 700 por mês prometida por Lula a 12 dias do segundo turno, ainda não tem data para começar, não tem lei e não consta do projeto de Orçamento de 2027, enviado ao Congresso antes do anúncio. Segundo o Estadão, as promessas vão exigir ajustes no Orçamento. A conta inicial é de R$ 4,6 bilhões por ano, dos quais R$ 3,1 bilhões seriam dinheiro novo, segundo a própria campanha, num momento em que o ministro da Fazenda fala em “ajuste gradual” das contas públicas.
Nesta terça-feira (3), Dario Durigan disse que o governo discute “um ajuste gradual que respeite os compromissos de campanha”, segundo O Globo e CNN Brasil. Dois dias antes, no domingo (1º), Lula afirmou em vídeo que “tudo aquilo que foi prometido na campanha, pode ficar certo que vai acontecer”, segundo Estadão e Valor Econômico. O Estadão lista o Pé-de-Meia Universitário entre essas promessas.
Pé-de-Meia Universitário: o que Lula prometeu
O anúncio foi feito em 13 de outubro, num vídeo-selfie nas redes sociais. “Garantindo que todo jovem estudante das escolas universitárias vão receber R$ 700 de poupança por mês durante dez meses e, ao fim do ano, depositaremos R$ 2.500”, disse Lula, segundo g1, O Globo e Valor Econômico. Ao fim de quatro anos, a poupança somaria R$ 10 mil. Somadas as bolsas, o total chegaria a R$ 38 mil por aluno, pela conta da redação (quatro anos de R$ 7.000 em bolsa e R$ 2.500 de poupança).
O programa valeria para alunos de universidades federais, estaduais e municipais e bolsistas do ProUni. O estudante precisaria passar de ano para receber o depósito anual, segundo o Poder360, e a poupança, corrigida pela inflação, só poderia ser sacada depois da conclusão do curso, segundo a Folha. Os detalhes foram apresentados pelo petista Camilo Santana.
| Ponto | O que se sabe | Fonte |
|---|---|---|
| Bolsa mensal | R$ 700, por 10 meses | Lula (vídeo de 13/10) |
| Poupança | R$ 2.500 por ano, saque após concluir o curso | Lula; Folha |
| Público inicial | Cerca de 485 mil alunos do CadÚnico | Folha, InfoMoney |
| Custo inicial | R$ 4,6 bilhões por ano (R$ 3,1 bi novos) | Nota do PT, via Valor e Folha |
| Lei, edital, data | Não existem | InfoMoney, Folha, Poder360 |
“Todo jovem” ou 485 mil? A conta que não fecha
Lula falou em “todo jovem estudante das escolas universitárias”. Camilo Santana disse que o programa atenderia 1 milhão de estudantes em 2027, segundo O Globo e Valor. Mas a própria equipe petista informou à Folha que a primeira etapa seria só para inscritos no CadÚnico com renda de até meio salário mínimo por pessoa, cerca de 485 mil alunos.
A diferença pesa no bolso. Cada aluno custa R$ 9.500 por ano (R$ 7.000 de bolsa e R$ 2.500 de poupança). Para 485 mil estudantes, isso dá cerca de R$ 4,6 bilhões, o número da campanha. Para 1 milhão, seriam R$ 9,5 bilhões. Pelas contas da Folha, se todos os 1,8 milhão de alunos das universidades públicas entrassem, o custo iria a R$ 17,9 bilhões por ano. Com os 434 mil bolsistas do ProUni, chegaria a R$ 22 bilhões.
Segundo reportagem da Folha publicada no domingo (1º), Lula vai precisar de ao menos R$ 7,2 bilhões extras só para ampliar as bolsas do ensino médio e do ensino superior. O projeto de Orçamento de 2027 prevê R$ 246 bilhões para o MEC, 6% a mais que em 2026, em valores nominais. A Fazenda respondeu ao jornal que “o governo encaminhará ao Congresso os ajustes necessários” e que “todos os ajustes respeitarão a meta de resultado primário e as regras do arcabouço fiscal”.
De onde sai o dinheiro do Pé-de-Meia Universitário
A campanha aponta o Fundo Social do pré-sal. A Lei 15.169/2025, sancionada por Lula em julho de 2025, incluiu a assistência estudantil do ensino superior entre as prioridades do fundo, segundo a Agência Câmara. O texto da lei, porém, destina esses recursos “exclusivamente para a educação pública” e manda aplicar a parte da assistência estudantil em “programas de ações afirmativas que assegurem o ingresso por reserva de vagas”. Não está claro como bolsistas do ProUni, que estudam em faculdades particulares, caberiam nessa fonte.
O Pé-de-Meia original, do ensino médio, foi criado pela Lei 14.818/2024, que vale só para o ensino médio público. Segundo a Folha, o MEC entende que o novo programa não precisará de nova lei e que o pagamento poderá ser feito pela Capes. A pasta quer integrar ao programa as bolsas e o auxílio estudantil que já existem, que somam R$ 2,4 bilhões neste ano.
O histórico pede cautela. Em janeiro de 2025, o Tribunal de Contas da União (TCU) bloqueou R$ 6 bilhões do Pé-de-Meia do ensino médio porque o dinheiro passava por um fundo privado sem transitar pelo Orçamento, segundo a Agência Brasil. O MEC afirmou na época que “todos os aportes feitos para o programa Pé de Meia foram aprovados pelo Congresso Nacional”. Em fevereiro, o TCU liberou os recursos e deu 120 dias para o governo incluir o programa no Orçamento, segundo o g1. O programa mobiliza cerca de R$ 12 bilhões do orçamento da Educação, segundo a Folha,.
A promessa se soma a outras da reta final da campanha, como o Desenrola 3.0, segundo o Estadão, e entra na mesma conta das promessas que analisamos em quem paga as promessas de Lula. O tamanho da fatura aparece também na disputa pelo Orçamento de 2027 e nos tributos novos, como o imposto seletivo.
OPINIÃO
Ninguém é contra o aluno pobre se formar. O problema é o método. A promessa foi lançada a 12 dias da eleição, num vídeo-selfie, com números que mudaram no mesmo dia: “todo jovem”, depois 1 milhão, depois 485 mil. Não estava no programa de governo nem no projeto de Orçamento, e o MEC já admite que não será imediato. O governo que agora fala em “ajuste gradual” é o mesmo que prometeu mais R$ 3,1 bilhões por ano para uma bolsa ainda sem lei, sem regra e sem data. Quem paga, no fim, é o contribuinte. Antes de criar programa novo, o governo deveria mostrar, com números do Tesouro, como fecha a conta das promessas de campanha. E o Congresso deveria exigir que tudo passe pelo Orçamento, às claras, como o TCU já cobrou no Pé-de-Meia do ensino médio.
— Emílio Kerber e Redação Endireita Brasil TV. Este box é opinião e está separado do noticiário.
Perguntas frequentes
O que é o Pé-de-Meia Universitário?
É uma promessa de campanha de Lula, anunciada em 13 de outubro de 2026: bolsa de R$ 700 por mês, durante dez meses, e depósito anual de R$ 2.500 numa poupança, que só poderia ser sacada depois da conclusão do curso, segundo a Folha. Ainda não existe lei, decreto, edital nem inscrição.
Quando começa o Pé-de-Meia Universitário?
A campanha falou em 2027, mas não há data. A cúpula do MEC prevê que a operacionalização “não será imediata”, segundo a Folha de S.Paulo. Não há inscrições abertas nem calendário de pagamento.
Quem vai ter direito ao Pé-de-Meia Universitário?
Segundo a campanha, alunos de universidades públicas (federais, estaduais e municipais) e bolsistas do ProUni. Na primeira etapa, só os inscritos no CadÚnico com renda de até meio salário mínimo por pessoa, cerca de 485 mil estudantes, segundo Folha e InfoMoney.
Qual é o valor do Pé-de-Meia Universitário?
R$ 700 por mês durante dez meses (R$ 7.000 por ano) mais R$ 2.500 por ano na poupança. Em um curso de quatro anos, seriam até R$ 38 mil por aluno, pela conta da redação.
Quanto custa o Pé-de-Meia Universitário e quem paga?
A campanha estimou R$ 4,6 bilhões por ano: R$ 1,23 bilhão do Fundo Social do pré-sal, R$ 293 milhões de bolsas de permanência que já existem e R$ 3,1 bilhões de dinheiro novo, segundo nota do PT citada por Valor e Folha. A Folha calcula que, se todos os alunos de universidades públicas e do ProUni entrassem, o custo chegaria a R$ 22 bilhões por ano.
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Nota de transparência: Emílio Kerber é jornalista e escritor. Fatos atribuídos a terceiros têm a fonte indicada no texto. As Leis 14.818/2024 e 15.169/2025 foram conferidas no Planalto. A promessa e os valores foram confirmados em g1, O Globo, Valor Econômico, Folha de S.Paulo, Poder360 e InfoMoney; a fala de Durigan, em O Globo e CNN Brasil; o vídeo de Lula de 1º de novembro, em Estadão e Valor; o caso do TCU, em Agência Brasil e g1. A posição do governo está nas notas da Fazenda e do MEC citadas. As contas de R$ 9,5 bilhões são da redação, a partir dos valores divulgados pela campanha. O box OPINIÃO é opinião e está separado do noticiário.
Imagem: arte Endireita Brasil TV.

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