Diretores do Banco Central: Lula busca nomes para baixar a Selic

Arte com as diretorias do Banco Central que Lula pode preencher e a Selic em 13,75%

Lula poderá indicar quatro diretores do Banco Central até fevereiro de 2027 e procura perfis mais “heterodoxos” para levar o Copom a cortar juros mais rápido, segundo o Valor Econômico. Duas cadeiras estão vazias desde janeiro, e os nomes devem ir ao Senado ainda em novembro, segundo o jornal. O Copom se reúne nesta terça (3), com a Selic em 13,75%.

Pela Folha de S.Paulo, a conta chega a seis indicações até o fim de 2027. O tema ganhou peso porque, segundo o Valor, o presidente reeleito está “inconformado” com a taxa de juros e começou a ouvir auxiliares e economistas sobre alternativas para derrubar a Selic no quarto mandato. A Selic está em 13,75% ao ano desde 17 de setembro, segundo o Banco Central.

Diretores do Banco Central: as vagas que Lula vai preencher

A diretoria colegiada do BC tem nove membros, incluindo o presidente, e todos votam no Copom, o comitê que define a Selic. Pela Lei Complementar 179/2021, a lei da autonomia do Banco Central, sancionada por Jair Bolsonaro, o presidente da República indica e nomeia, mas só depois de o Senado aprovar cada nome. Os mandatos são de quatro anos e escalonados, justamente para que nenhum governo troque o comitê inteiro de uma vez.

DiretoriaSituaçãoFonte
Política EconômicaVaga desde janeiro de 2026; interino: Paulo PicchettiValor, UOL; interino: Veja
Organização do Sistema Financeiro e de ResoluçãoVaga desde janeiro de 2026Valor, UOL, Veja
Política Monetária (Nilton David)Mandato vence no fim de fevereiro de 2027Valor, UOL
Fiscalização (Ailton de Aquino)Mandato vence no fim de fevereiro de 2027Valor, UOL
Mais duas cadeirasAbrem em 31 de dezembro de 2027Folha

Segundo o Valor, Lula combinou com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), o envio ainda neste mês dos nomes para as duas vagas abertas. Nos bastidores, ainda segundo o jornal, não há certeza de que Nilton David e Ailton de Aquino, ambos nomeados por Lula, serão reconduzidos, diante do desejo do presidente de “arejar” o colegiado. A Veja lembra que, em fevereiro, o então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, chegou a apresentar os nomes de Guilherme Mello e Tiago Cavalcanti para as vagas, sem que o governo formalizasse as escolhas.

Roncaglia, o nome que mexeu com o mercado

O nome que mais circula é o de André Roncaglia, diretor-executivo do Brasil no FMI. Segundo o UOL, ele é o preferido da equipe econômica para uma das vagas, mas o nome ainda não foi levado a Lula. A Veja descreve o economista como ligado ao pensamento desenvolvimentista e lembra que, em artigo de 2023, ele defendeu elevar a meta de inflação para 4,5% e adotar um regime monetário mais flexível. Segundo a Folha, o simples rumor da indicação “mexeu com os preços do mercado financeiro”.

Procurado pela Folha, Roncaglia disse que ficou surpreso com as reportagens e que não recebeu contato da equipe econômica. “Não me cabe comentar sobre algo que é prerrogativa do presidente Lula”, afirmou. Ao UOL, disse que seu artigo recente sobre a meta de 3% não criticou o regime de metas e que apenas reproduziu um estudo do FMI. O presidente do BC, Gabriel Galípolo, reafirmou que as nomeações são prerrogativa de Lula, segundo a Veja.

O que está em jogo no Copom

Segundo a Folha, a partir de 2028, último ano do mandato de Galípolo, os seis novos indicados de Lula se tornariam maioria no colegiado. O temor de parte do mercado, diz o jornal, é que o BC passe a ser leniente com a inflação para acelerar a queda dos juros, e analistas já esperam a volta do debate sobre afrouxar a meta de inflação, hoje de 3%. O ex-presidente do BC Gustavo Loyola disse à Folha que aumentar a meta seria “uma jogada de toalha, a confissão de fracasso”. Já o ex-diretor Sérgio Werlang avalia, também à Folha, que Lula deve optar por nomes de perfil moderadamente conservador.

O precedente existe. Em 8 de maio de 2024, os diretores indicados por Lula votaram por um corte maior da Selic e perderam por 5 a 4, num racha que levantou dúvidas sobre a credibilidade do BC, lembra a Folha. A pressão sobre os juros também aparece na tese do tabelamento de juros de André Lara Resende, que o ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse ao Valor não estar no radar do governo.

A reunião do Copom que começa hoje termina na quarta-feira (4), quando sai a decisão. Pesquisa da Reuters mostra que 33 de 48 economistas esperam a Selic mantida em 13,75%, interrompendo cinco cortes seguidos de 0,25 ponto. No levantamento do Valor, 72 de 105 casas preveem manutenção. A conta fiscal do novo mandato, que discutimos em quem paga as promessas de Lula, pesa nessa avaliação.

Há também o fator Senado. Segundo o UOL, a equipe econômica quer acelerar as indicações porque o Senado de 2027 terá bancada maior de oposição, principalmente do PL, que terá 29 dos 81 senadores, segundo a Agência Senado. Quem vai comandar a Casa que sabatina os nomes é o tema da matéria sobre a presidência do Senado em 2027.

OPINIÃO

A autonomia do Banco Central foi uma das conquistas mais importantes do país nos últimos anos, e foi aprovada justamente para que o juro não dependesse do humor de quem ocupa o Planalto. Lula tem todo o direito de indicar diretores: a lei manda assim. O que preocupa é o critério. Buscar nomes para “provocar uma mudança de rumo” do Copom, como relatou o Valor, é inverter a lógica. Juro alto no Brasil não cai por decreto nem por troca de cadeira; cai quando o governo mostra que controla os próprios gastos. Se Lula quer Selic menor, o caminho é cortar despesa, não montar um Copom à sua medida. O Senado, que sabatina cada indicado, tem o dever de cobrar compromisso público com a meta de inflação de 3%.

— Emílio Kerber e Redação Endireita Brasil TV. Este box é opinião e está separado do noticiário.

Perguntas frequentes

Quantos diretores do Banco Central Lula pode indicar?

Quatro até fevereiro de 2027: as duas vagas abertas desde janeiro de 2026 (Política Econômica e Organização do Sistema Financeiro e de Resolução) e as de Política Monetária e Fiscalização, cujos mandatos vencem no fim de fevereiro de 2027, segundo Valor Econômico e UOL. Pela conta da Folha de S.Paulo, são seis até o fim de 2027, porque outras duas cadeiras abrem em 31 de dezembro de 2027.

Quem escolhe os diretores do Banco Central?

O presidente da República indica e nomeia, mas só depois de o Senado aprovar os nomes, como manda a Lei Complementar 179/2021, a lei da autonomia do BC. A diretoria tem nove membros, incluindo o presidente do banco, e cada mandato dura quatro anos.

André Roncaglia foi indicado para o Banco Central?

Não. Até a manhã de 3 de novembro, não havia indicação formal. O nome do diretor-executivo do Brasil no FMI circula como preferido de parte da equipe econômica, segundo UOL e Veja. Roncaglia disse à Folha e ao UOL que não foi sondado.

Quando o Copom decide a Selic?

A reunião começa nesta terça-feira (3) e a decisão sai na quarta-feira (4), no fim da tarde. A Selic está em 13,75% ao ano, segundo o Banco Central. Pesquisas da Reuters e do Valor mostram que a maioria dos economistas espera a manutenção da taxa.

Os novos diretores mudam o Copom?

Podem mudar. Os diretores e o presidente do BC votam no Copom. Segundo a Folha, a partir de 2028 os seis novos indicados de Lula seriam maioria no colegiado de nove, e o mercado teme um comitê mais tolerante com a inflação.

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Nota de transparência: Emílio Kerber é jornalista e escritor. Fatos atribuídos a terceiros têm a fonte indicada no texto. As regras de indicação e mandato são da Lei Complementar 179/2021; a Selic, do Banco Central. As vagas e os mandatos foram confirmados em Valor Econômico, UOL e Veja; a conta de seis indicações e as avaliações de economistas são da Folha de S.Paulo. As falas de André Roncaglia são da Folha e do UOL; a de Galípolo, da Veja; a de Durigan, do Valor. As projeções para o Copom são das pesquisas da Reuters e do Valor. O texto não faz acusação a ninguém. O box OPINIÃO é opinião e está separado do noticiário.

Imagem: arte Endireita Brasil TV.

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