Tabelamento de juros: a tese de Lara Resende que ronda Lula

Arte do Endireita Brasil TV: tabelamento de juros, Selic em 13,75%, faixa proposta de 3% a 5,5%, alvo de 7,5% em 12 meses e dívida bruta de 82,9% do PIB

O tabelamento de juros entrou no debate do governo Lula 4. A proposta do economista André Lara Resende fixa a Selic entre 3% e 5,5% ao ano, sob um novo conselho fiscal e monetário. Gleisi Hoffmann e o coordenador do programa de Lula elogiaram a ideia. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, nega que ela esteja na mesa do presidente.

Tabelamento de juros: o que propõe Lara Resende

A tese está no artigo “Eu acuso: uma proposta para eliminar as taxas de juros absurdas do Brasil”, publicado por Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, em 25 de setembro, segundo o Valor Econômico. O tema voltou à tona no domingo (1º), depois que o colunista Lauro Jardim, do O Globo, informou que Lula deveria se reunir com o economista nesta semana, em Brasília. Os principais pontos, segundo a Folha de S.Paulo, o Valor e a CNN Brasil:

  • Novo conselho: criação do Conselho Fiscal e Monetário Nacional (CFMN), que definiria metas fiscais e monetárias conjuntas para quatro a cinco anos.
  • Faixa para a Selic: o Banco Central manteria a taxa entre a meta de inflação, de 3%, e o crescimento nominal potencial do PIB, cerca de 5,5% ao ano. Sair da faixa só com autorização do conselho.
  • Transição: corte gradual da Selic, em cerca de 12 meses, até perto de 7,5% ao ano, com uma margem temporária de 2 pontos acima do teto.
  • Câmbio: uso das reservas internacionais para conter a alta do dólar. “Com reservas internacionais de mais de US$ 350 bilhões, o BC tem munição de sobra para isso”, escreveu o economista, segundo o Valor.

Para comparação, a meta da Selic está em 13,75% ao ano desde 17 de setembro, segundo o Banco Central, e em dois dígitos desde fevereiro de 2022. A meta de inflação é de 3%. As reservas internacionais somavam cerca de US$ 365 bilhões em 28 de outubro, pelos dados do BC. Segundo a Folha, Lara Resende foi procurado para comentar e não respondeu até a publicação da reportagem.

O diagnóstico: a dívida e os juros

Lara Resende sustenta que o problema fiscal está nos juros, e não no gasto primário. Pelos dados do Banco Central, a dívida bruta do governo geral chegou a 82,93% do PIB em setembro de 2026, contra 71,68% em dezembro de 2022, uma alta de mais de 11 pontos no terceiro mandato de Lula. A dívida líquida do setor público estava em 69,98% do PIB em setembro. Segundo a Folha, o economista calcula que, com custo médio de 12,68% ao ano, a dívida cresce R$ 1,4 trilhão por ano. Ele admite, segundo o jornal, que cortar os juros pode causar um repique de inflação no início.

Quem defende e quem critica

QuemO que disse
Gleisi Hoffmann (PT-PR), ex-ministraNo X, chamou o artigo de “fundamental para enfrentar essa ofensiva terrorista sobre a política fiscal brasileira” (Folha, Valor)
José Sérgio Gabrielli, coordenador do programa de LulaEm texto de 11 páginas, disse que a proposta do conselho “merece atenção especial” e celebrou o fim do “pensamento único” (CNN Brasil, SBT News)
Dario Durigan, ministro da Fazenda“Não há nenhuma reunião agendada entre o presidente e Lara Resende” (Folha); “Não estamos discutindo nenhuma proposta do André Lara Resende para levar ao presidente” (CNN Brasil)
Aloizio Mercadante, presidente do BNDES“Essa proposta não está no governo” (Folha)
Edinho Silva, presidente do PT“O único que fala em nome do governo Lula na política econômica é o ministro Dario Durigan” (Folha, CNN Brasil)

Entre os críticos, Marcos Mendes, pesquisador associado do Insper, disse à Folha que a “proposta pressupõe que se pode fazer um ajuste fiscal, cuja dificuldade de realizar é o cerne da questão”. Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, lembrou a tentativa de 2012: “Isso já foi feito, de certa forma, em 2012 e foi um desastre”. Dois gestores de grandes bancos, ouvidos pela Folha sob reserva, disseram que o conselho acabaria com a autonomia do Banco Central e deixaria a Selic a serviço do custo da dívida, e não da inflação.

O que diz a lei sobre o Banco Central

A Lei Complementar 179, sancionada em 24 de fevereiro de 2021, diz que o BC tem como objetivo fundamental “assegurar a estabilidade de preços”. As metas são fixadas pelo Conselho Monetário Nacional, mas cabe “privativamente” ao BC conduzir a política monetária. O presidente e os diretores têm mandato de 4 anos e só podem ser exonerados em casos previstos na lei; o mandato do presidente começa no terceiro ano do governo. Segundo a Folha, Lula já criticou publicamente essa autonomia e cobrou várias vezes do presidente do BC, Gabriel Galípolo, juros mais baixos. Um conselho com poder sobre a taxa de juros mexeria nessa estrutura.

O mercado já está nervoso. O dólar subiu de R$ 5,04, em 23 de outubro, para R$ 5,42 em 30 de outubro, pela cotação Ptax do Banco Central. A Folha relacionou a alta do dólar ao resultado do segundo turno. Veja também quem paga a conta das promessas de Lula.

OPINIÃO

Tabelar preço nunca deu certo no Brasil, e juro é o preço do dinheiro. A Selic alta é sintoma de um governo que gasta mais do que arrecada, e a dívida bruta subiu mais de 11 pontos do PIB desde 2023, segundo o próprio Banco Central. Culpar o BC pela conta é inverter causa e efeito. O ministro Durigan nega a ideia, e isso é bom sinal. Mas, quando a ex-ministra Gleisi e o coordenador do programa de Lula aplaudem um “conselho” para mandar nos juros, o eleitor tem razão de desconfiar. O teste é simples: o governo vai apresentar um corte de gastos crível ou vai preferir atalhos que ameaçam a autonomia do Banco Central, aprovada em 2021? A resposta deve aparecer na escolha da equipe econômica, como mostramos em Ministérios Lula 4.

— Emílio Kerber e Redação Endireita Brasil TV. Este box é opinião e está separado do noticiário.

Perguntas frequentes

O que é o tabelamento de juros proposto por Lara Resende?

É a ideia de manter a Selic dentro de uma faixa fixa, entre a meta de inflação (3%) e cerca de 5,5% ao ano, definida por um novo Conselho Fiscal e Monetário Nacional (CFMN). A taxa só sairia dessa faixa em casos excepcionais autorizados pelo conselho, segundo a Folha de S.Paulo, a CNN Brasil e o SBT News.

O governo Lula vai tabelar os juros?

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, nega. “Nenhuma dessas ideias como tabelamento de juros está na mesa do presidente”, disse à Folha em 1º de novembro. Ele também negou que haja reunião marcada entre Lula e Lara Resende.

Quanto está a Selic hoje?

A meta da Selic está em 13,75% ao ano desde 17 de setembro de 2026, segundo o Banco Central. A taxa está em dois dígitos desde fevereiro de 2022.

O Banco Central é autônomo?

Sim. A Lei Complementar 179, de 2021, dá ao BC autonomia técnica, operacional, administrativa e financeira, mandato fixo de 4 anos para o presidente e os diretores e o objetivo fundamental de assegurar a estabilidade de preços. As metas são fixadas pelo Conselho Monetário Nacional.

Quem apoia a proposta de Lara Resende?

Gleisi Hoffmann (PT-PR) chamou o artigo de “fundamental” e José Sérgio Gabrielli, coordenador do programa de governo de Lula, elogiou a ideia do conselho. Economistas como Sérgio Vale e Marcos Mendes, ouvidos pela Folha, criticam a proposta.

Leia também

Nota de transparência: Emílio Kerber é colunista do Jornal da Cidade Online. Fatos atribuídos a terceiros têm a fonte indicada no texto; os números de Selic, meta de inflação, dívida, reservas e dólar são do Banco Central. As declarações foram dadas à Folha de S.Paulo, ao Valor Econômico, à CNN Brasil e ao SBT News. Segundo a Folha, André Lara Resende foi procurado e não respondeu. O texto não faz acusação a ninguém. O box OPINIÃO é opinião e está separado do noticiário.

Imagem: arte Endireita Brasil TV.

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *